Grupos Temáticos

Trabalhos Selecionados

 

1. Práticas de trabalho de campo em Antropologia Visual – José da Silva Ribeiro

Se a reflexão teórica em antropologia e antropologia visual é de grande importância esta não pode estar de modo alguns desvinculadas das práticas e trabalho de campo em antropologia e antropologia visual e sonora a partir das quais se produz o conhecimento antropológico e a produção cinematográfica em antropologia. Pretende-se neste grupo de trabalho reunir contributos diversificados destas práticas, das produções audiovisuais e  os questionamentos éticos, estéticos, políticos e epistemológicos que as permeiam.

01 – Imagens, atuações, e abduções de agências dos encantados: reflexões metodológicas e simetrização de saberes na etnográfica fílmica.
Juliana Loureiro- Universidade Federal do Rio de Janeiro

A imagem gravada da atuação (incorporação) dos encantados torna-se assim como os encantados, virtual, invisível, que necessita possuir outro corpo, o projetor ou a tela, para se tornar visível, para atuar. A etnografia fílmica da encantaria que vivencio na pesquisa impõem a produção de uma reflexão sobre a imagem como incorporação e arte e a incorporação como imagem artística, que afeta os sentidos. As atuações dos encantados e de suas imagens são artísticas e possuem agências provocadoras de e identificadas por abduções.As exegeses das atuações dos encantados exigem abduções de agências e essas da ativação dos conhecimentos religiosos e tradicionais que se consolidam na relação entre mundos, entre humanos e encantados. É a partir da relação e da vivência com os encantados que se torna possível abduzir suas agências, suas atuações. A Nesse trabalho apresento uma reflexão sobre a composição de procedimentos metodológicos para uma etnografia fílmica da encantaria que se consolidam através de simetrizações de saberes e do exercício de uma antropologia compartilhada.

02 – Pela lente eu vejo: visualidades na resex Mocapajuba em São Caetano de Odivelas-PA
Marcelo Da Costa Tavares – Universidade Federal do Pará

Em 2014 a reserva extrativista marinha Mocapajuba, localizada em São Caetano de Odivelas-PA, foi homologada, mas as implicações ambientais, políticas e sociais de sua criação são desconhecidas pela maior parte de seus moradores. Assim, no âmbito do projeto de pesquisa e extensão “Empoderamento, ethos local e recursos naturais: cartografia social e estratégias imagéticas para a elaboração de planos de ação em RESEX’s marinhas do salgado paraense” desenvolvido pelo grupo de pesquisa EHNAPAM-UFPA, foi produzido um documentário curta metragem chamado “A lama e o sal: conflitos socioambientais na RESEX Mocapajuba em São Caetano de Odivelas-PA”. Ele intentou registrar algumas situações de conflitos socioambientais presentes no município, e assim também traçar um perfil sociocultural da população da RESEX. Também foi ministrada uma oficina de produção de vídeos com celular para jovens da comunidade do Aê, que objetivou estimular o protagonismo dos moradores de Mocapajuba na consolidação da reserva como instrumento popular de manutenção dos recursos naturais da região. Dessa forma, este artigo busca analisar a construção identitária dos moradores de Mocapajuba presente na linguagem dessas produções audiovisuais, e também, se propõe a fazer uma reflexão sobre esta experiência de criação e o uso de conteúdos cinematográficos na pesquisa em antropologia, pois o vídeo além de ser uma metodologia que gera novas possibilidades, tem a capacidade de provocar estimulo e envolvimento nas pessoas.

03 – Photo voice e fotografias faladas – práticas de pesquisa participante a explorar em antropologia visual?
José da Silva Ribeiro – Universidade Federal de Goiás e AO NORTE – Grupo de Estudos de Cinema e Nrarativas Digitais

Desde 1997, após a publicação de Photovoice: concept, methodology, and use for participatory needs assessment de Caroline Wang e Mary Ann Burris que esta metodologia tem sido desenvolvida em múltiplas pesquisas. Paralelamente Carlos Eduardo Viana desenvolve uma prática de produção audiovisual que denominou de Fotografia Falada. Ambas as metodologias dão particular importância às palavras e à encenação das palavras. Propomo-nos nesta intervenção explorar linhas de continuidade entre as duas práticas de trabalho de campo. A primeira centrada em fotografias produzidas pelos interlocutores dos pesquisadores a segunda numa fotografia de arquivos considerada relevante pelos interlocutores da pesquisa. Apresentaremos também alguns ensaios realizados de fotografias faladas, os desafios e dificuldades de sua realização, e seus questionamentos epistemológicos, éticos e estético no âmbito de uma antropologia audiovisual compartilhada.

 04 – Narrativa autobiográfica e a experiência etnográfica em Marajó
Denise Cardoso – Universidade Federal do Pará
Priscilla Brito – Universidade Federal do Pará

A pesquisa sobre a trajetória de Dona Maria da Silva foi baseada em narrativa desenvolvida a partir da utilização de recurso audiovisual. Estimulada pela ideia de realização de produção de um vídeo sobre sua biografia, e suas atividades como parteira em município do arquipélago do Marajó, Dona Maria apresentou a si mesma em narrativa que envolve a oralidade, lembranças de diferentes momentos de sua vida e descrição de saberes sobre o partejar. O objetivo deste trabalho é debater sobre a utilização de narrativa autobiográfica, também denominada como narrativa na primeira pessoa, em contexto de pesquisa antropológica. Precisamente, propomos uma reflexão sobre os usos da Antropologia Visual a partir da experiência etnográfica sobre práticas de uma parteira no município de Melgaço. Os dispositivos audiovisuais trazidos como instrumentos de investigação facilitam ou dificultam a pesquisa de campo? As possíveis limitações, dificuldades e facilidades que se apresentam com os usos destes dispositivos interferem de que modo no decorrer da inserção em campo? Estas e outras inquietações nos levaram a refletir sobre os usos deste referencial metodológico. Sobre as narrativas na primeira pessoa evidenciou-se que ela tem sido realizada de maneira bastante profícua, pois Dona Maria da Silva tem apresentado seu trabalho como parteira. Ela relata que começou aos vinte e cinco anos quando uma tia precisou de sua ajuda na hora do parto. Sozinhas tiveram que ajudar uma a outra nesse momento de trazer uma criança ao mundo. A partir de então, foi paulatinamente sendo acionada por outras mulheres quando ainda morava no município de Breves. Desde então, passou a desenvolver o que atualmente ela considera como um dom, um dom de Deus. O que resulta deste estudo é um processo de montagem a partir dos fragmentos de memórias com lembranças e esquecimentos.

2. Cinema Indígena: perspectivas na atualidade – Renato Athias

O cinema indígena é uma categoria global, muito diversa, e existente em todos os continente americano, Austrália, Nova Zelândia, norte da Europa,  etc. Esta produção de cinema indígena (autóctone), documentário e ficção surgiu nos finais dos anos sessenta e consolidou-se nas décadas seguintes. O cinema indígena tem origem em desenvolvimentos tecnológicos, em explorações da antropologia compartilhada e, principalmente, na expansão os movimentos indígenas em vários países, com o apoio de organismos internacionais. Nesse sentido, o cinema é uma arena importante de reivindicação, incluindo a nível de questões fundiárias, ambientais e de descolonização, mas é, acima de tudo, um meio de dar voz e corpo aos povos indígenas, isto é, de “talk back” ou “shoot back” para a sociedade colonial. Atualmente, alguns cientistas sociais advogam que existe um “cinema  indígena global” construído através destas redes internacionais, mas é importante sublinhar que a maioria da produção tem uma origem local, com relevâncias específicas para os coletivos de onde emana. Tendo em conta este enquadramento, procura-se contribuições que ajudem a pensar os recursos do cinema indígena, incluindo trabalhos centrados em estudos de caso que permitam compreender o quadro geral ou reflexões amplas aplicáveis a diferentes contextos.

01 – Tecendo visualidades e territorialidades a partir da Associação Cultural de Realizadores Indígenas (ASCURI/MS)
Luiza P. S. Serber – UNICAMP

A Associação Cultural de Realizadores Indígenas (ASCURI) atua desde 2008 em meio a diversas comunidades em Mato Grosso do Sul e reúne jovens cineastas das etnias Guarani, Kaiowá e Terena. Partindo da premissa de que no universo da produção audiovisual indígena há um estreito – e particular – imbricamento entre tal produção e o contexto no qual ela se encontra imersa, propõe-se desenvolver aqui uma reflexão atenta à relação entre as obras fílmicas da ASCURI e as configurações territoriais sul-mato-grossenses. Tal abordagem dialoga com a noção proposta por Ginsburg (1994) de “embedded aesthetics”, elaborada a partir do estudo da experiência dos povos aborígenes australianos com a produção midiática. Em contraste com a crítica ocidental, que tende a privilegiar uma leitura textual do filme, Ginsburg sugere que a produção audiovisual destes povos reivindica para si uma orientação estética própria na qual se encontram “incrustradas” relações que operam no extracampo das obras fílmicas. Conduzida então por um “sistema de avaliação que recusa a separação entre produção textual e circulação de arenas mais amplas de relações sociais” (GINSBURG, 1994, p.368, tradução nossa), sugere-se que a produção fílmica da ASCURI seja lida à luz dos valores, protocolos e metodologias próprias da comunidade na qual foi desenvolvida. Estando também embrenhados nesta trama, espera-se começar a dar contornos a regimes de visualidades próprios aos “jeitos Terena/Guarani/Kaiowá” de ver e de mostrar (LAGROU, SEVERI, 2013, p.68), que se expressam por meio da linguagem fílmica. Avançando neste sentido, propõe-se uma passagem do habitual foco analítico nas qualidades formais do filme como texto para um foco nas “mediações” que, a um só tempo, atravessam e constituem estes produtos audiovisuais.

02 – Uma Experiência Audiovisual Galibi-Marworno

Davi Castro Gabriel – UNIFAP

Os Galibi-Marworno são falantes de uma língua crioula Kheuól, tem aproximadamente uma população de 3 mil indivíduos que vivem espalhados por três terras indígenas no extremo norte do Amapá: Uaçá, Juminã e Galibi. Assim como a maioria dos povos originários que vivem no Brasil, estamos criando estratégias para manter e preservar a nossa cultura das diversas intervenções vindas de fora. A partir da ação do projeto ‘Valorização das Línguas Crioulas’ se fez uso da linguagem cinematográfica por meio de oficinas de capacitação em filmagem, fotografia e edição, o trabalho foi desenvolvido de forma coletiva, todos os participantes da oficina puderam se envolver e discutir a proposta de narrativa a ser construída por eles durante esse processo. Prestigiando e documentando a língua materna foram desenvolvidas coletivamente várias experiências no campo do audiovisual, com o objetivo de deixar registrado quem são os Galibi-Marworno.

03 – Cinema e Música: experiências e experimentos audiovisuais na fronteira
Davi Castro Gabriel – Universidade Federal do Amapá
Kauri Waiapi – Universidade Federal do Amapá

O objetivo deste trabalho é compartilhar e discutir experiências e experimentos que estamos desenvolvendo no âmbito da música e do audiovisual em nossas comunidades indígenas. Trata-se de um trabalho na “fronteira”, o que nos remete tanto a fronteira física, uma vez que estamos atuando principalmente na região do Oiapoque, limítrofe do Brasil com a Guiana Francesa; mas existe outra fronteira, que é ao mesmo tempo abstrata e concreta; firme e fluida, e que separa o universo indígena dos “outros”. Unindo o audiovisual e a música procuramos dar o nosso olhar, enquanto indígenas Galibi-Marworno e Waiãpi, para as demandas atuais de nossa comunidade, muito relacionadas com a interação e o contato de nosso povo com a sociedade não índia. Um de nossos experimentos é o trabalho desenvolvido com a música Ga’u Wasua, composta e cantada por um waiãpi e para a qual elaboramos um vídeo clipe ambientado em Oiapoque e Saint Georges, duas cidades que, tradicionalmente, são de livre trânsito entre os povos indígenas de nossa região. Entendemos que o clipe é o “rosto da música” e o utilizamos para desmitificar vários estereótipos sobre os povos indígenas. No clipe temos um indígena atual, que se utiliza dos recursos e das tecnologias para discutir assuntos de sua realidade, como a importância da cultura e da bebida tradicional, temas que são tratados na letra da música, cantada na língua waiãpi. Queremos com este trabalho demonstrar a importância e o respeito à nossa cultura tradicional e que podemos e devemos nos apropriar de recursos tecnológicos e de outros espaços para divulgar e promover nossa cultura, a forma como percebemos o mundo e nós mesmos.

04 – A Antropologia Visual Indígena: Um estudo sobre o processo de produção audiovisual sob uma perspectiva interna
Ana Manoela Primo dos Santos Soares – Universidade Federal do Pará

Partindo-se de experiências centradas sobre o conhecimento indígena e a aprendizagem em nível acadêmico acerca da antropologia com foco nas áreas de etnologia indígena e antropologia visual, pretendo aqui tecer uma reflexão sobre o processo de realização de vídeos com indígenas nos quais os mesmos falem sobre suas histórias e os conhecimentos de seus povos. Os objetivos aqui são os se pensar sobre o fato de como a produção audiovisual pode contribuir para a conservação e difusão dos conhecimentos e memórias dos povos originários, sobre uma perspectiva interna, ou seja, de quem é indígena, assim de como é o processo para tais produções. A metodologia se embasará sobre as experiências teóricas e práticas adquiridas em uma disciplina do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da Universidade Federal do Pará (UFPA) que se propõe a trabalhar a questão audiovisual para a internet centrada nos povos indígenas e outras populações tradicionais; assim como versará sobre uma perspectiva auto antropológica e/ou auto etnográfica, visto que eu mesma, como proponente de tal artigo, estou na condição de indígena, pertencente ao povo Karipuna do Amapá com uma formação a nível de pós-graduação em andamento sobre a área de antropologia. Logo a realização de tal pesquisa também é um olhar para si, como indígena e pesquisadora, sendo a mesma uma forte reflexão de como tais produções contribuem e podem contribuir para meu povo.

 

05 – Pelas lentes das câmeras: formação de pesquisadores, documentação de saberes e produção audiovisual entre os povos indígenas do Oiapoque
Davi Castro Gabriel – Universidade Federal do Amapá
Elissandra Barros da Silva – Universidade Federal do Amapá

A difusão de tecnologias digitais (computadores, celulares, câmeras fotográficas e filmadoras) entre os povos indígenas nos últimos anos tem possibilitado o surgimento de uma série de iniciativas desses povos, que vão desde o registro documental de práticas tradicionais e atividades cotidianas até o desenvolvimento de uma linguagem audiovisual própria, que tem sido chamada, mesmo sem consenso, de cinema indígena ou de autoria indígena. Nas comunidades indígenas do Oiapoque-AP – município que faz fronteira com a Guiana Francesa e no qual vivem os povos indígenas Galibi-Maworno, Galibi-Kalinã, Karipuna e Palikur-Arukwayene – os smartphones são os preferidos pelos indígenas para o registro de seu dia-a-dia nas aldeias, mesmo que poucas tenham acesso à internet ou luz elétrica 24 horas. Outros equipamentos mais caros, principalmente as filmadoras e computadores para edição de vídeo, costumam ser acessíveis através de projetos pontuais desenvolvidos por ONGs ou Universidades. Aqui destacamos as iniciativas que têm sido fomentadas pelo Curso de Licenciatura Intercultural Indígena, principalmente em projetos e atividades direcionados à formação de pesquisadores e a documentação cultural e linguística. O objetivo desse trabalho é (i) compartilhar experiências com as oficinas de formação focadas no audiovisual; (ii) mostrar as atividades de documentação já desenvolvidas; e (iii) refletir sobre o entrosamento com as comunidades, sem o qual é impossível realizar atividades pautadas no respeito, confiança e compromisso ético.

 06 – Cinema Maxakali/Tikmũ´ũn e modos de relação
Ana Carolina Estrela da Costa – Universidade de São Paulo

Minha pesquisa busca examinar e descrever as dimensões cosmopolíticas no contexto atual da produção cinematográfica – uma experiência estética e política, e também uma possibilidade de criação etnográfica compartilhada -, e da formação de cineastas, entre os Maxakali/Tikmũ’ũn, no nordeste de Minas Gerais. Proponho um exame de seus modos de produção de relações e subjetividades – também entre os diversos seres/outros com quem partilham experiências sensíveis – e as experiências territoriais e de produção e partilha de saberes: as ações políticas, estéticas e xamânicas Tikmũ’ũn, nas quais olhares e escutas aparecem como competências fundamentais. O cinema produz-se em ressonância com outros modos de produção de relação através de olhares e escutas.

3. Imagem, Arte, Ética e Sociedade: em torno da questão da religiosidade – Kátia Mendonça e Valber Brito

Esta proposta de trabalho tem por objetivo constituir um espaço para a reflexão e o debate sobre as possíveis interconexões entre Imagem, Arte, Ética e Sociedade, tendo como foco a perspectiva do imaginário e a religiosidade. Diante dos crescentes desafios existentes entorno de relações sociais no século XXI, marcadas pelo conflito e pela violência, uma das tarefas da sociologia, antropologia e áreas afins é voltar seu olhar às relações entre arte e religiosidade e, buscando novos caminhos epistemológicos, analisar as expressões de religiosidade presentes no imaginário das artes visuais, em particular da fotografia, do cinema da literatura ou midiáticas (hoje em larga escala mediadas pela tecnologia), entendendo queque a arte e as imagens são instituídas e instituintes de teias de relações sociais. Em suma, a partir do exposto, pretende-se discutir questões e contribuições onde a arte e a imagem apresentam-se como o eixo fundamental de sua constituição, intimamente ligada à questão da religiosidade.

01 – Do ex-pajé à Manocultura da fé: a tragédia do etnocídio indígena através do cinema
Manoela Freire de Oliveira – Universidade Federal da Bahia

Componente imprescindível da cultura contemporânea, o cinema constitui-se como importante corpus para pesquisas em diferentes áreas. O cinema na antropologia também vem sendo utilizado de diferentes maneiras: tanto como ferramenta, como objeto de pesquisa. O cinema, é visto como fonte de produção de sentido, pois nos apresenta explicitamente representações das culturas e como narrativa importante sobre questões emergentes sobre os povos indígenas na contemporaneidade. O cinema aqui apresenta-se como produção de narrativas para pensar os conflitos religiosos, a partir de dois filmes/documentários: Ex-pajé (2018, 91 min, dir. Luiz Bolonegsi) e Monocultura da Fé. (2018, 23 min, dir. Joana Moncau e Gabriela Moncau). São filmes escolhidos não só como objetos para uma análise estética ou semiótica do áudio-visual, mas sim, como narrativas ou imagens que rasuram o projeto/discurso da nação por trazerem à tona, estereótipos construídos ao longo do processo colonialista. O filme documentário/ficção Ex-pajé, narra a história dos pajés ou xamãs frente ao cristianismo e à colonização de um ponto de vista diferente, ou seja, a partir da perspectiva de um ex-pajé e do processo do contato mais permanente dos Paiter Suruí com a sociedade nacional. Apesar de serem índios “evangelizados”, o pajé continua vendo muito espíritos que interferem cotidianamente no modo de ser daquele povo. Já o filme Monocultura da fé, também retrata os conflitos entre os Guarani Kaiowá e a igreja evangélica. O mini-documentário percorre aldeias do Mato Grosso do Sul para mostrar denúncias cada vez mais frequentes de violências cometidas por grupos evangélicos contra rezadores tradicionais. O contraste entre os cultos evangélicos e os rituais xamânicos, entre lideranças ancestrais, os pastores e a relação das religiões com as disputas pela terra, dão o tom narrativo do curta-metragem. 

02 – As mãos que fazem o Círio: uma análise do documentário “Mãos de Outubro”
Mariana Pamplona Ximenes Ponte – Universidade Federal do Pará
Melissa Barbery Lima – Universidade Federal do Pará (PPGARTES)

O documentário “Mãos de Outubro” fala de maneira poética do Círio de Nazaré de Belém-Pa que realiza sua principal procissão no segundo domingo de outubro pela manhã. O diretor Victor Souza Lima optou por construir sua narrativa através das mãos que fazem o Círio em seus muitos momentos rituais e de hierofania. A imagem peregrina que sai às ruas é conduzida pelas mãos de atores específicos que a levam até a berlinda e a elevam em momentos importantes de cada ritual. Os objetos de cera que são produzidos para serem usados no pagamento de promessas por mãos que colaboram pra manter essa tradição na maneira de se relacionar com a santa. Em cada uma dessas situações, através da estética estabelecida no filme, compreendemos o ethos religioso da população que comemora sua principal devoção de maneira festiva com uma ética peculiar entre os devotos e o sagrado.

4. O fazer (áudio) visual – Lisabete Coradini

Pretende-se nesse grupo de trabalho reunir contribuições sobre o fazer audiovisual e estratégias metodológicas. Trabalhos que versam sobre antropologia audiovisual, ética de abordagens com imagens, produção, memórias coletivas, etnografias participativas em imagem e som, paisagens sonoras. Também busca-se reflexionar sobre o potencial valor da produção cinematográfica para a investigação básica e aplicada em antropologia, bem como em outras ciências sociais e humanas.

01 – Karuana das Imagens: guerrilhas cinematográficas quilombolas, em Cametá, Pará
Francisco Weyl – Universidade do Porto /Faculdade de Belas Artes

A partir das memórias das transgressoras experiências que caracterizaram algumas das práticas de resistências coletivas audiovisuais no cenário da arte contemporânea, este artigo é um recorte ao anteprojeto de pesquisa de doutoramento em Artes Plásticas, que ora desenvolvo na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (“Estéticas de guerrilha em comunidades periféricas, tradicionais, e quilombolas da Amazônia Paraense”), e que nasce das vivências entre comunidade quilombolas, no Município de Cametá, Pará, junto a crianças, jovens e adultos – que não possuíam experiência cinematográfica -, e dos respectivos processos que permearam a construção de relações no campo da pesquisa, das práticas pedagógicas democráticas, bem como os processos subjacentes à produção de obras audiovisuais, seus procedimentos metodológicos, aspectos históricos, e antropológicos.

02 – A paisagem visual e sonora belenense e a construção da percepção local através do áudio-vídeo
Victória Ester Tavares da Costa – Universidade Federal do Pará

Belém do Pará, assim como outros centros urbanos, tem suas características sonoras próprias, dependendo de por onde se passa, quando se passa e porque se passa. A produção audiovisual de e em Belém não é recente, assim como a forma padronizada e exotizada que ela é (re)conhecida, por sua localização. A discussão das urbanidades da Amazônia ainda demanda a manifestação de suas particularidades, o que o audiovisual torna possível desde o seu criar, passando pelo fazer e assistir. Os registros contemporâneos têm, portanto, a oportunidade e o papel de lidar com essa pluralidade e conteúdos locais para que não apenas o mundo, mas a própria cidade se (re)conheça. Assim, através do curta-metragem documental-ficcional “A queda do céu”, episódio do projeto “Aquilo que os Jovens chamam de Música”, filmado na capital paraense, proponho olhar para alguns pontos das colocações em áudio e vídeo destas paisagens diversas. Para isto, levo em conta a experiência de quem filmou (já que a produção é de uma equipe de fora da cidade) e do que se vê-ouve, enquanto belenense e telespectadora de uma filmagem que supera a superficialidade ou estrangeirismos. Não raro faço também colocações sobre produções locais no decorrer do texto, entremeando o que é mostrado em imagens e sons no vídeo. O que se mostra e se consome da cidade (ainda que não se viva nela)? Quais são essas Beléns que estão sendo filmadas e percebidas no cotidiano?

03 – O sujeito-objeto de um ensaio fotográfico: ser fotografado como período liminar
Helena Taborda Monahan – Universidade Federal Fluminense

Se sujeitar a um ensaio fotográfico é pisar fora de uma relação quotidiana com a própria imagem. É conscientizar-se como objeto, entender e superar a passividade de tal lugar, apropriar-se do autocontrole corporal e com isso emocional e construir como sujeito parte da imagem que está sendo produzida. Cria afetos no fotografado, e concretudes, imortalizando o próprio processo num simulacro de si mesmo, uma imagem. A experiência consiste em retirar-se do espaço-tempo comum, a princípio sem acidentalmente, submetendo-se a ser visto, verdadeiramente visto, por outra pessoa, o fotógrafo, por intermédio da câmera. Os três personagens-elementos dessa composição constroem coletivamente um período à parte, liminar. O antropólogo, mais comumente ocupando o papel de fotógrafo, está acostumado ao poder inerente dessa posição, e mesmo quando consegue entender o fotografado como sujeito, não apenas produtor de um objeto visual, deixa de lados os elementos individuais subjetivos que atravessam essa experiência. Ser fotografado é um processo de passagem, de coletivização, de objetificação e/ou empoderamento, de imortalizar-se, de tornar-se simulacro. O presente artigo é uma etnografia sobre o processo de ser sujeito-objeto de um ensaio fotográfico e como, estando nesse lugar, é possível se sensibilizar à complexidade de fotografar outra pessoa.

04 – O cinema em Vicente Cecim: Uma analise cultural dos filmes: Marráa Yaí Makúma – Aquele que dorme sem sono (2007), A Lua é o Sol (2009), Fonte dos que dormem (2009).
Marcos Otávio Ferreira de Lemos – FAPESPA

O cinema realizado no estado do Pará e um dos pioneiros na produção nacional, O cineasta, jornalista e escritor paraense Vicente Cecim (1946), teve sua trajetória cinematografia iniciada na década de 1970 ( Matadouro, Permanência, Sombras, Malditos Mendigos e Rumores), posteriormente o autor dedica-se a literatura e ao jornalismo, Na primeira década deste século, Cecim retorna ao cinema, entre as suas três produções nesta primeira :Marráa Yaí Makúma – Aquele que dorme sem sono (2007),A Lua é o Sol (2009),Fonte dos que dormem (2009). Este trabalho tem como objetivo geral apresentar o cineasta Vicente Cecim e suas múltiplas atividades na tríade cinema-literatura e cultura suas ideias e conhecimentos. Com objetivos específicos, analisar como o autor realiza o seu processo de criação e, as formas estéticas de sua produção fílmica na primeira década de 2000,a concepção antropologia da arte e cinema, kinemAndara, como o cineasta denominou essa sua filmografia.

05 – Cinemática do afeto: processos audiovisuais colaborativos com coletivos artísticos incomuns na cidade de São Paulo e a produção compartilhada de conhecimento.

Isabela Umbuzeiro Valent – Universidade de São Paulo
Jayme Valarelli Menezes – Universidade Presbiteriana Mackenzie
Yasmin Lopes de Oliveira – Universidade de São Paulo 

O trabalho apresenta a experiência de uma oficina audiovisual oferecida no âmbito de uma pesquisa de doutorado em andamento que parte da perspectiva da produção compartilhada de conhecimento. A oficina colaborativa foi desenvolvida em parceria com coletivos artísticos da cidade São Paulo que têm em comum formas não convencionais de criação a partir da participação de qualquer pessoa, independente de sua condição social ou de saúde.
Serão apresentadas imagens produzidas e reflexões sobre o dispositivo criado a partir de diferentes agentes que compuseram esse processo: pesquisadora, realizador audiovisual, estagiária e participante. A oficina, aberta e gratuita, contou com a participação de 30 pessoas representando 7 coletivos. Os encontros foram sediados no Ponto de Cultura É de Lei, um dos coletivos envolvidos. Os participantes compuseram equipes de filmagem com entrevistas, imagens de observação e produziram criações documentais em montagens audiovisuais.
Foram levantadas informações dos coletivos, incentivadas trocas e a sensibilização dos participantes para observar esse universo por meio da linguagem audiovisual. Para que vozes dissonantes pudessem compor o processo de criação foram inventadas formas de trabalho comuns que propiciaram convivência e articulação entre membros da oficina e espaços públicos da cidade. O dispositivo instaurou um processo coletivo, articulando redes e trocas, fortalecendo a organização dos projetos bem como encontros inusitados e geradores de ações comuns.

06 – Cine Guamá – Cotidianos do Cinema na Periferia, Memorias, Afetividades e Narrativas imagéticas
Sabrina Figueiredo Sousa – Universidade Federal do Pará

O fazer do audiovisual de grande circulação é construído de muitas maneiras, no Brasil e no mundo com grande tendência nas narrativas e na produção e circulação quase massiva de histórias e imaginários masculinos e brancos (européia e estadunidense), os quais passam estereótipos, ideais, construídos e reforçando um sentido de estética e representação conservadoras e machistas sobre papéis tanto de gênero, raça, quanto de classe, o qual passa por mudanças significativas no que diz respeito aos papéis da representatividade nas telas, tanto em sua narrativa, quanto atrás das câmeras. Essas narrativas são as que mais se aproximam do cotidiano da perieria da cidade, e muitas vezes ainda pela televisão. Ainda dificultando o acesso a outras maneiras de acessar o cinema e as produções audiovisuais, mesmo que experimentais. É também neste contexto que estão os diálogos e aproximações de jovens e o querer fazer parte deste contexto de cineclubismo, onde as mulheres estão conquistando mais espaço nas construções diegéticas. Entretanto, muito ainda precisa ser construído no que diz respeito a imagem da mulher negra. Partimos de uma observação participante sobre como a percepção de papéis não secundários para mulheres, pessoas negras, ou mesmo de contra narrativas de “princesas”, ou mesmo os papéis de princesas não ortodoxos, os quais constroem novos olhares sobre a representatividade e proporcionalidade no cinema para jovens espectadores da periferia de Belém sob a observação dos filmes exibidos no cineclube, a partir também de diálogos de como a rotina dos filmes proporcionam novos experiências e possiblidades as suas vidas, e protagonismo e a participação de jovens da comunidade por meio também da metodologoa de educação entre pares. Com auxílio de entrevistas e fichas avaliativas das sessões. Com sugestões de filmes, perfil de visitantes, e muitas vezes com direcionamentos pessoais rm busca de direcionamento afetivo dos jovens que participam e participativo em todo processo de construção das atividades.

 

07 – A atuação do estúdio de áudio e vídeo “Encontro das águas” no fomento à produção audiovisual no Baixo Amazonas
Carlos De Matos Bandeira Junior – Universidade Federal do Oeste do Pará
João Ricardo Silva – Universidade Federal do Oeste do Pará

O estúdio de áudio e vídeo “Encontro das águas” é um setor da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), vinculado à Pró-Reitoria da Cultura, Comunidade e Extensão (PROCCE), que tem como principal objetivo fomentar a produção audiovisual no baixo amazonas, área de atuação da universidade. Historicamente essa região esteve fora do cenário de produção cinematográfica autoral. Fatores como a falta de formação no campo da comunicação visual, de um cenário mercadológico favorável, acesso a equipamentos, entre outros, contribuíram para ocorrência de tal processo. Em 2010, a implantação da Ufopa com sede na cidade de Santarém e campis nos municípios de Oriximiná, Itaituba, Alenquer, Óbidos e Juruti promove transformações profundas econômicas e culturais nas relações locais dessas cidades. A universidade sob o tripé ensino, pesquisa e extensão volta suas reflexões para as questões amazônicas. Nesse âmbito, percebeu-se a necessidade de um espaço de promoção e formação para realização de projetos fílmicos. É nesse contexto, que o estúdio de áudio e vídeo Encontro das Águas é gestado. A partir de 2016 inicia-se a idealização desse espaço com a aquisição de equipamentos com recursos da própria instituição e, posteriormente, ganha corpo em 2018 quando vincula-se ao Núcleo e Produção Digital (NPD), da Secretaria de Audiovisual do governo Federal e recebe uma série de materiais como câmeras, ilhas de edição, lentes, microfones, tripés, para desenvolver a política de produção audiovisual regionalizada. Atualmente, o estúdio sistematizou por meio de normas e regimentos o acesso aos equipamentos disponíveis e publicou edital para cadastrar projetos no âmbito da universidade com demandas audiovisuais. Além do mais, tem promovido oficinas e minicursos com profissionais locais para formação de pessoas com interesse na produção cinematográfica, assim como tem realizado projetos com conteúdo independente com objetivo de valorização dos artistas locais e a constituição de um acervo antropológico-visual das memórias e saberes das populações locais.

08 – Autobiografias compartilhadas e narrativas na primeira pessoa
José da Silva Ribeiro – Universidade Federal de Goiás e AO NORTE – Grupo de Estudos de Cinema e Narativas Digitais

A pesquisa autobiográfica tem tido um substancial desenvolvimento bem como as narrativas na primeira pessoa. Também desde há nos que vimos pensando numa cinematografias de histórias de vida e da narrativas de si. Propomo-nos apresentar experiências realizadas no âmbito dos projetos de extensão: Incursões etnográficas em Melgaço do Marajó e Práticas de pesquisa em antropologia visual e arte e cultura visual desenvolvidos no âmbito da cooperação entre a UFPA, UFG e AO NORTE – Grupo de Estudos em Cinema e Narrativas Digitais e das práticas de ensino nos programas de pós-graduação em Arte e Cultura Visual e Antropologia Social da Universidade Federal de Goiás.

09 – Uma aventura na Florescer: filme feito por crianças em situação de ensino doméstico em Portugal
Raquel Pacheco – CIAC – Centro de Investigação em Artes e Comunicação e FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia

Este texto baseia-se no trabalho de campo desenvolvido durante a pesquisa realizada com crianças em situação de ensino doméstico em Portugal. Trabalhamos o cinema como mecanismo para reflexão sobre o próprio cinema e o audiovisual, a educação e as dinamicas que envolvem o ensino doméstico, pela ótica das próprias crianças que participaram neste processo. Nossa intenção foi perceber o nível de literacia fílmica destas crianças e desenvolver um trabalho de descoberta da linguagem cinematográfica não só pela ótica do espectador, mas também da produção. Deste modo as crianças tiveram formação para que realizassem um filme que as representasse, através do modo que elas se vêem, dentro daquele contexto educativo. Para isso exibimos filmes disponibilizados na plataforma de exibição Videocamp, que falavam sobre educação e suas diversas perspectivas. Para entendermos o olhar destas crianças, desenvolvemos uma pesquisa etnográfica, durante o ano letivo de 2018/2019, e acompanhamos semalmente o grupo de crianças da Comunidade de Aprendizagem Florescer com idades entre os 7 e 13 anos. Foi utilizado como
ferramenta de registro de pesquisa um “diário de bordo”. A filosofia deste trabalho de campo baseia-se na pedagogia dialética de Paulo Freire. É através
do diálogo problematizante desenvolvido principalmente após a exibição de filmes que estimulamos o questionamento e a problematização, e a partir
de questões, opiniões e ideias realizamos um filme. Através da educação para, com e sobre as mídias, utilizamos conceitos de comunicação, educação e participação, trabalhando temáticas relacionadas ao dia a dia destas crianças. O produto final deste projeto foi um filme em que as crianças foram as
protagonistas em todas as etapas de realização: da pré-produção à finalização.

5. Cinema e Linguagem: um olhar sobre o(s) gênero(s) – Luzia Miranda

A arte do cinema teve suas câmeras focadas na visualidade de imagens euro-americanas. A transversalidade dessas imagens para outras áreas e locais de re-conhecimento favoreceu novos caminhos estéticos e introduziu a diversidade do olhar com a inclusão do diferente, do “outro”, da perspectiva de gênero. A proposta deste GT é observar de que forma a perspectiva da diversidade pode ser encontrada em filmes que tratam de gêneros cinematográficos, estabelecem um novo olhar para encontrar a versão sobre o gênero do “diferente” e o tratamento que a narrativa obedece para criar a crítica a essa situação.

01 – “Perto do Céu, mas longe do Paraíso: reflexões sobre a assistência de direção em audiovisuais”
Simone Alves de Melo Machado – Universidade Federal do Pará

O presente trabalho tem o objetivo de contribuir sobre o registro e reflexões a respeito da função do assistente de direção em cinema e vídeo. Função complexa com uma multiplicidade de conhecimentos em sua formação que vai da capacidade de liderança e planejamento, passando pela sensibilidade e sólida formação artística, até um verdadeiro mediador de conflitos uma vez que é a ponte entre o diretor e seus assistentes e os demais membros ou ”cabeças” da equipe. Diz-se “próximo do céu” porque é junto com o diretor geral, o diretor de fotografia, o diretor de arte e o diretor de produção os elementos que podem tornar um projeto audiovisual possível pois, são também os que pensam poética e artisticamente o filme. É também, aquele que exerce o papel de “fiel escudeiro” do diretor no campo de batalhas e tensões em que muitas vezes se transforma os sets de filmagens, o caminho que muitas vezes torna longe o paraíso de muitos projetos em cinema ou vídeo, na medida em que gera altíssimos níveis de stress provenientes das múltiplas exigências e aprofundado conhecimento que lhe é exigido na complexa gestão, seja a partir do roteiro, seja no dia a dia do set de filmagem. Decupar roteiro, planejar as filmagens, compor, montar o seu quebra cabeças, pensar a produção junto com o diretor e os demais “diretores” ou chefes de departamento, sem no entanto ultrapassar a estreita linha que separa a intromissão na ideia (e no sonho) de quem é de fato o seu “dono”. É sobre esse emaranhado de competências, características e desdobramentos dentro de um projeto audiovisual a partir do ponto de vista da assistência de direção que proponho essas reflexões. Sem muitas referências específicas em português a respeito do tema trago para o diálogo os auxílios basilares de Certeau, Fatorelli, Tarkovski e Ginzburg e os estudos de Arielle Pannatier do Observatório de Métiers em Audiovisual de Paris.

02 – Questões de alteridade no cinema de ficção científica estadunidense
Thais Farias Lassali – Universidade Estadual de Campinas

Considera-se um filme de ficção científica aquele que realiza um comentário social através de uma narrativa de cunho reflexivo sobre ciência, tecnologia, humanidade e o desconhecido (Sobchack, 2005). Via de regra essa interação se dá por meio da relação ou do choque com criaturas aparentemente muito diferentes daquilo que se considera humano. Isso significa duas coisas: (1) é importante que o filme estabeleça, direta ou indiretamente, sua própria noção de humanidade, evidentemente baseada em concepções socialmente compartilhadas; (2) dizer que, no geral, se trata de um estilo fílmico que lida com questões de alteridade porque concentra seu desenvolvimento narrativo no encontro de diferenças, conciliáveis – como alguns dos androides e robôs de Star Wars – ou não – como o Alien da franquia homônima. O passo lógico associado a essa definição é que também se apresenta o que se coloca fora da esfera da humanidade, o que é considerado de outra ordem, o que é entendido como uma alteridade radical. E para isso ocorrer a ficção científica tem a possibilidade de flexionar os marcadores sociais e passar a colocá-los em lugares que não são evidentes. Com isso em mente, a presente comunicação oral tem como objetivo analisar a maneira como os filmes de Star Wars lida com questões de alteridade, ao mesmo tempo em que observa como a referida franquia lida com marcadores sociais da diferença.

03 – Do lugar de outros cinemas: sobre perspectivas metodológicas que tratem da produção de narrativas audiovisuais no/sobre o Baixo Tapajós
Liendria Marla Malcher Silva – Universidade Federal do Pará

Trabalhar com o cinema dentro da disciplina antropológica propicia diversos questionamentos. Neste artigo trago algumas reflexões iniciais para elaborar caminhos para o tratamento de documentários, em formato de curtas e médias-metragens, produzidos na/sobre a região do Baixo Tapajós por cineastas locais de 2008 a 2018. Surge, portanto, de uma necessidade de encontrar ao menos três lugares como ponto de partida para o desenvolvimento da pesquisa em curso: primeiramente, entender a relação entre antropologia e cinema, depois pensar o lugar dessas narrativas audiovisuais dentro de um contexto amplo histórico, político e social e, por fim, nas especificidades do espaço amazônico. Inicialmente, trago de forma sucinta os desdobramentos históricos das aproximações e distanciamentos entre a antropologia e as imagens da era da reprodutibilidade técnica, a fotografia e o filme, desde suas respectivas origens à constituição do campo abrangente da antropologia visual. Procura-se adensar a pergunta: qual é o lugar da imagem e do filme dentro dos debates da antropologia? Em seguida, procura-se entender o contexto em que se difunde as tecnologias audiovisuais no mundo e suas implicações sócio-políticas, flexibilizando a relação entre local e global nas interculturalidades resultantes de processos coloniais. Posteriormente, procura-se construir um breve panorama acerca do que tem sido produzido sobre e na Amazônia, considerando que o cinema possui um papel fundamental na formação do imaginário sobre a ideia de “Amazônia”, e a respeito das potencialidades dos produtos audiovisuais endógenos da microrregião do Baixo Tapajós. Em linhas de conclusões, com base nos suportes teóricos apresentados e nas pesquisas de campo já iniciadas, o exercício de bricolagem realizado no artigo aponta pontos de partida para pensar esses documentários enquanto objetos de análise antropológica.

04 – Joyce Cursino e um novo olhar sobre o cinema produzido na periferia para novas mídias
Leila Cristina Leite Ferreira – Universidade Federal do Pará
Lucélia Leite Ferreira – SEDUC/PA

O objetivo deste artigo é discutir o trabalho de uma jovem artista do cinema brasileiro, Joyce Cursino, é paraense, formada em jornalismo, é diretora, atriz, produtora, roteirista e possui alguns trabalhos, inclusive premiados. E como uma artista negra, da periferia, moradora do bairro do Jurunas, produz tratando como temas centrais a juventude negra feminina, a periferia e seus dilemas, trazendo como diferencial uma linguagem direta para essa juventude e facilitando o seu acesso a partir da internet. É o que ocorre no caso da Websérie Pretas e do seu documentário sobre cineastas negras brasileiras “É coisa de Preta” onde traz o relato de mulheres negras que se utilizam do cinema como ferramenta para contar as suas histórias a partir de seu ponto de vista, como enfatiza Patricia Hill Collins, se empoderando de meios disponíveis e renovando o que vem a ser cinema e a maneira como ele deve ser apresentado para a população, principalmente a da periferia. Pretas foi produzida pela produtora Invisível Filmes, da qual Joyce faz parte. Na internet o Youtube, Instagram, facebook e outras redes sociais são utilizadas para a divulgação e mesmo exibição dos filmes produzidos por essas mulheres. Nesse cinema a imagem da mulher negra vem de maneira positiva e com ações em que sua intelectualidade é colocada em visibilidade.

05 – A ciborguização da mulher na ficção científica: feminilidade tradicional e o caso das Esposas de Stepford
Isabel Wittmann – Universidade de São Paulo

Neste trabalho, tomando como ponto de partida minha pesquisa de doutorado em andamento, busco refletir sobre a relação entre corpo, gênero e ciborguização, sob os termos de Haraway (2009). Para isso, utilizo filmes de ficção científica que retratam mulheres ciborgues, ressaltando a forma como gênero é criado e reafirmado normativamente nessas narrativas (BUTLER, 2000). Entendo o filme, portanto, como uma tecnologia de gênero (LAURETIS, 1987). Dito isso, observo como esses corpos são posicionados nas histórias, quais são as relações que se entabulam a partir deles, que padrões ou tropos são possíveis determinar e de que forma isso pode, de maneira paralela, refletir nossa própria relação com tecnologia, gênero e sexualidade. Além disso, busco identificar quais categorias de feminilidades são acionadas na construção das personagens. Para a etapa de trabalho apresentada aqui, utilizo os filmes As Esposas de Stepford (The Stepford Wives, 1975) e Mulheres Perfeitas (The Stepford Wives, 2004), apresentando de que forma os ideais de feminilidade tradicional perpassam ambas as obras. 

06 – Semana Janaína Dutra na escola: o cine diálogos e o combate a LGTFOBIA
Maria Marilene Banhos Nogueira – Secretaria de Educação do Estado do Ceará (SEDUC)

Este artigo apresenta um relato de experiência sobre o projeto escolar: Semana Janaina Dutra na Escola. A ação pedagógica foi realizada na EEM Adauto Bezerra, rede estadual de ensino, Fortaleza, Ceará. O Cine Diálogos exibiu o documentário “Janaína Dutra: Uma dama de ferro”. O filme foi dirigido e produzido por Vagner de Almeida e Grupo de Resistência Asa Branca – GRAB. A obra cinematográfica conta a trajetória da advogada e militante dos direitos humanos, nascida em Canindé, Ceará, Janaína Dutra, a primeira travesti com registro na OAB. Os objetivos do trabalho buscaram: ampliar os recursos didáticos das ciências humanas no ensino médio; desconstruir estereótipos de gênero; fortalecer práticas de alteridade; e ampliar a prática do cinema na escola. O projeto foi coordenado pela professora de sociologia com a participação direta de duzentos estudantes. Aporte teórico metodológico: pesquisa-ação. Destaque para a lei N. º 16.481/2017, criou a Semana Janaína Dutra de Promoção do Respeito à Diversidade Sexual e de Gênero no Estado do Ceará; e a lei N. º 9.548/2009, da Prefeitura de Fortaleza, orienta a promoção, durante o mês de maio, da Semana Janaína Dutra. Conceitos presentes na discussão: diversidade, machismo, direitos humanos, gênero, identidade de gênero, nome social, sexualidade, orientação sexual e LGBTfobia. Autorxs que nortearam a prática escolar: Berenice Bento, Daniela Auad, Renan Quinalha e Helena Vieira. Resultados identificados: relevância de práticas pedagógicas de combate a violência contra a LGBTfobia; aprofundamento do estudo das leis indicadas na sala de aula e continuidade da ação.

07 – Fissuras do olhar colonizador em “Casa de Lava”
Maurício Sérgio Borba Costa Filho – Universidade Federal do Pará

O presente trabalho busca realizar uma análise do filme “Casa de Lava” (1994), do diretor português Pedro Costa, situando-o como ponto de inflexão fundamental em uma filmografia atravessada pela problemática ética do filmar o outro. Entre “O Sangue” (1989), longa de estreia evocativo, que transita no gênero noir e é permeado por inúmeras referências da formação cinéfila de Costa, e os duros filmes das Fontainhas – “Ossos”, 1997; “No Quarto da Vanda”, 2000; “Juventude em Marcha”, 2006; – longas que, levando ao limite a (desgastada) oposição binária ficção/documentário, acompanham a vivência de imigrantes cabo-verdianos e seus descendentes na periferia de Lisboa, está “Casa de Lava”, filme rodado fora de Portugal, em Cabo Verde, ex-colônia portuguesa. Se, por um lado, quanto à estruturação do argumento, temos a utilização de um procedimento que guarda certas semelhanças com a tradição vista em “O Sangue” – o fato de Casa de Lava ser uma espécie de refilmagem de “I Walked with a Zombie” (1943), de Jacques Tourneur -, por outro temos a fissura aberta por uma questão ética-estética colocada em negativo pelo diretor desde o início contra tal procedimento: não é possível ir a Cabo Verde e simplesmente citar o clássico de Tourneur. Não se pode ir a Cabo Verde, enquanto português, e pretender apreender os corpos da ilha ao modo romântico do jovem cinéfilo estreante. A citação à tradição do cinema clássico não funciona aqui como um fim em si mesmo, mas como polo de tensão constante que vai colocar em jogo a própria presença de Costa e de seu olhar (um olhar marcado pela história do colonialismo) diante dos cabo-verdianos. Pretendemos, nesta comunicação, elaborar algumas considerações a propósito desta questão ética-estética no segundo longa de Costa e perquirir como ela viria a antecipar sua produção posterior.

08 – A construção da realidade por meio da linguagem nos filmes de ficção científica brasileiros
Ana Luiza da Silva Dias – Universidade Federal do Ceará
Fabielle Kevinne Santos Melo – Universidade Federal do Ceará

O objetivo deste trabalho é analisar a atuação da linguagem na criação de um imaginário social diferente dos filmes de ficção científica brasileiros em comparação com os filmes do mesmo gênero feitos nos Estados Unidos, que lideram a produção cinematográfica internacional. Tendo em mente que a linguagem, que é a articulação do código linguístico, é um fator essencial para a legitimação de categorias que formam a percepção da realidade pelos seus emissores, fornecendo ferramentas para os falantes daquela língua se comunicarem, assim como para enxergarem o mundo e estabelecerem relações sociais, analisamos as produções cinematográficas em língua portuguesa que se encaixam no gênero ficção científica, em especial o cinema de Kleber Mendonça Filho, cineasta natural de Recife, em filmes como Recife Frio (2009), Vinil Verde (2004) e A menina do algodão (2003). O cinema de ficção científica, que traz temas que mesclam a ciência com a natureza humana, é majoritariamente produzido pelos Estados Unidos da América. Consequentemente, a língua inglesa se torna a “língua neutra” nas histórias deste gênero, mesmo quando outros povos as protagonizam. Ao transformar determinada língua em “terreno comum” para diferentes grupos que interagem entre si, condiciona-se os pensamentos destes diversos grupos à visão de mundo daquela língua. Aceitar que o inglês é a língua oficial dos filmes de ficção científica é aceitar uma única maneira de ordenar, conceber e representar o mundo. Sabendo que o cinema é um discurso, queremos entender quais são as principais diferenças nas narrativas de ficção científica entre os cinemas brasileiro e o norte-americano e como elas são influenciadas por suas línguas de origem. Como essas diferenças transparecem nas telas? Metodologicamente, a pesquisa utilizou-se da literatura antropológica sobre cinema, o gênero ficção científica e teorias da linguagem, assim como foram assistidos filmes nacionais desse gênero.